Entrevista aborda espiritismo e política


sinuecertoPara discutir esse polêmico tema, O IDEAL tem a alegria de convidar Sinuê Neckel Miguel. Sinuê é bacharel em História pela UFRGS, mestre em História pela Unicamp e atualmente cursa o doutorado em Ciências Sociais pela Unicamp. É autor do livro Movimento Universitário Espírita: religião e política no Espiritismo brasileiro (1967-1974), publicado pela editora Alameda. Atuou no movimento espírita gaúcho, especialmente junto à juventude por meio do Grupo de Programação Juvenil (GPJ) – UDE Partenon, de Porto Alegre-RS. Participou do NEUU (Núcleo Espírita Universitário da Unicamp) e do GEEU (Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp). Leciona no curso de Pós-Graduação em Pedagogia Espírita oferecido pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita.

O IDEAL: No Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XVII, it.10, “o homem no mundo”), os benfeitores espirituais, alertam que, em prol de uma vida espiritualizada, não deve a Huma- nidade refugiar-se numa vida mística, fora das leis sociais. Em que medida podemos atualizar essa afirmativa, considerando a necessidade ou não dos engajamentos sociais por parte do espírita, em nosso tempo?

SINUÊ: Embora o recolhimento interior, a prece e a medi- tação sejam poderosos instrumentos de harmonização de sentimentos e pensamentos, a vida de relação, isto é, a vida em sociedade, é imprescindível para que o ser humano desenvolva suas potencialidades, evoluindo não apenas como indivíduo mas também como espécie, como coletividade que se organiza em sociedade. Isto não significa todavia que devamos simplesmente nos adaptarmos, passivamente, às condições sociais nas quais nos encontramos num dado tempo histórico. Somos seres criativos, dotados de livre-arbítrio, co-criadores da nossa própria realidade individual e social. Somos, portanto, responsáveis individual e coletivamente pelos destinos da aventura humana na Terra. O engajamento social, nas suas diversas formas, realiza-se a partir dessa percepção.

O IDEAL: E como pode se verificar, por parte do espírita, o engajamento social coletivo e individual, em que pese a tarefa individual de auto iluminação?

SINUÊ: O espírita, ao abraçar valores éticos como fraternidade, justiça, liberdade e igualdade, deve abrir-se para um processo de crescente conscientização da amplitude e profundidade das possíveis implicações práticas de tais princípios. É nessa perspectiva que se coloca o imperativo ético do engajamento social, o fazer o bem nos limites das nossas forças. Em cada tempo histórico se renovam as exigências que o mundo nos coloca, os problemas e desafios que se nos apresentam. Procurar compreendê-los, na sua complexa totalidade, é tarefa não apenas intelectual, mas sobretudo prática. A partir da elevada aspiração ao bem e do persistente empenho prático podemos superar os preconceitos da nossa época, nossas próprias limitações e toda a sorte de entraves psicológicos, políticos, sociais e econômicos que se colocam à plena realização do ser.

O IDEAL: É possível que, em nome da indulgência e do amor ao próximo, o Espírita compreenda o “dar a outra face” de Jesus como fechar os olhos para o “desconcerto do mundo”, para as injustiças que os movimentos progressistas denunciam?

SINUÊ: De modo algum. Esse seria um equívoco grave, implicando em conivência com as mais graves mazelas que saltam aos olhos para quem quiser ver. O “dar a outra face” é uma postura ativa de enfrentamento da violência por meio do amor, em altíssima expressão de coragem, altruísmo e fé na capacidade humana de estabelecer a paz na qual impera o ódio, a injustiça e a indiferença com o sofrimento.

O IDEAL: Em que medida e de que forma é possível um entrelaçamento saudável entre as práticas religiosas espíritas (entre as quais aquelas dos centros e institutos) e a condição eminentemente política do ser humano?

SINUÊ: Dado que indivíduo e sociedade estão indissociavelmente vinculados numa relação de mútua implicação, e tendo em vista que a política pode ser entendida como expressão da necessidade humana de criar formas de organização para a sua vida coletiva, não há como se evitar a presença da dimensão política seja em qual for o espaço social em que nos encontre- mos, e mesmo no âmbito íntimo e privado. O mundo político nos forma como seres sociais, estejamos  conscientes ou não disso. É a própria forma como se estrutura organizacionalmente nossa sociedade que condiciona o nosso pensar, o nosso agir e o nosso sentir. Ainda que não quiséssemos nos posicionar politicamente, em ambiente religioso, por exemplo, já estaríamos adotando a posição do silêncio, que não significa de modo algum “neutralidade”. Isto porque não existe vazio no campo político. A apatia ou o silêncio de uns favorecem as concepções que possuem hegemonia na sociedade (o que não deve ser confundido com a distribuição do poder político entre siglas partidárias).

O IDEAL: Então, o que se quer dizer é que não é possível a busca de uma postura apolítica, não é mesmo? Que é preciso ter uma posição?

SINUÊ: Exatamente. As várias formas de conceber a adequada vida em sociedade são necessariamente conflitantes, pois possuem certa coerência interna e diferenças entre si que implicam em opções do tipo “ou uma ou outra”. Os novos arranjos na verdade criam novas vias, diferenciadas das anteriores. Isso não quer dizer que não haja espaço para convergências, intersecções e aproximações. Evidentemente que há. Mas é  importante compreendermos esse caráter conflitual entre as perspectivas políticas. É algo aproximadamente análogo, por exemplo, à forma como uma família se organiza para viver debaixo do mesmo teto. Os parâmetros gerais para orientar a vida coletiva de uma dada família precisam minimamente de uma coerência. Todavia, pode haver divergências quanto a esses parâmetros, e daí advém o conflito. Ele pode ser resolvido de modo mais ou menos democrático ou não. Uma forma provisória de viver junto, sujeita a revisões, pode ser estabelecida. Mas desde que existam concepções distintas de organização da vida coletiva haverá conflitualidade, em algum grau.

O IDEAL: Compreendo, sendo assim, e voltando à pergunta anterior, já que a vida requer de nós posicionamento político (porque o não-posicionamento é também um posicionamento!), em que medida pensar um posicionamento religioso? É possível isso?

SINUÊ: Podemos pensar em pelo menos três perspectivas gerais para o relacionamento entre religião e política. Numa delas, a religião na sua forma tradicionalmente estabelecida (isto é, como conjunto de dogmas sobre questões transcendentais, defendidos e vulgarizados por uma organização institucional) pretende governar, isto é, preencher o campo político integral- mente, tendo em vista sua pretensão à verdade absoluta que deseja fazer valer para a coletividade. No limite, tal perspectiva resulta em Estados teocráticos.

O IDEAL: Esse é o caso dos fundamentalismos religiosos, não é?

SINUÊ: Exato. Noutra perspectiva, prefere-se tentar apartar a religião da política para evitar uma relação de “contaminação” da primeira pela segunda – de certo modo, para proteger o que seria o caráter “sagrado” (no sentido dogmático), “puro”, “eterno”, “divino”, da religião frente ao “profano”, “imperfeito”, “impuro”, “humano” que caracterizaria a polí- tica. Muito dessa perspectiva tem influenciado o movimento espírita, que almeja assim manter-se “neutro” politicamente e preservado dos embates políticos, percebidos como ameaça desagregadora.

O IDEAL: E qual seria a alternativa a essas duas opções?

SINUÊ: Numa terceira perspectiva, a religião abre-se para o mundo da política  mas ao mesmo tempo “desdogmatiza-se”. Isto é, passa a pensar nas implicações políticas dos seus postulados éticos mas não pretende que tais implicações práticas devam se impor sob a forma de dogmas, como verdades absolutas divinamente reveladas. A sua relação com a política é experi- mental, dinâmica, crítica, aberta. No limite, não se trata mais de religião como conhecemos na prática, pois a forma dogmática seria superada. Sua influência no campo político seria uma experiência  teórico-prática  consciente e plural, permanentemente sujeita a revisões. Teria de se relacionar “de igual para igual” com as demais concepções políticas da sociedade, sejam elas de matriz religiosa ou não. Quer dizer, seu esforço argumentativo teria de se dar num “terreno comum”, por meio de critérios compartilhados, dentro de um “mínimo denominador comum” de racionalidade e convivência  democrática.

O IDEAL: E é possível que a Doutrina Espírita contribua para a construção dessa forma racional, democrática, plural e, ao mesmo tempo, espiritualista, de construir nossa sociedade?

SINUÊ: A meu ver, o Espiritismo tem condições teóricas para avançar rapidamente para essa via. O problema maior situa-se nas concepções predominantes no movimento espírita relativamente à política e à própria Doutrina Espírita, tendente à dogmatização.

O IDEAL: Meu caro, no movimento espírita, é comum ouvirmos a opinião de que Espiritismo e política não devem se misturar. O que você pensa sobre isso? Afinal, podemos falar de política nos centros espíritas, devem os espíritas se posicionar na tribuna sobre os temas de sua época?

SINUÊ: Penso que isso é positivo dentro da terceira perspectiva apresentada para a relação entre religião e política, isto é, naquela em que a religião abre-se para o mundo da política, mas ao mesmo tempo “desdogmatiza-se”. Ou seja, passa a pensar nas implicações políticas dos seus postulados éticos, mas não pretende que tais implicações práticas devam se impor sob a forma de dogmas, como verdades absolutas divinamente reveladas. Assim, não podemos apresentar nossa visão sobre política e suas conexões estabelecidas com princípios espíritas em nível mais abstrato, como se fossem no- vos dogmas. Temos de ser capazes de nos respeitar profundamente, de dialogarmos com abertura de espírito e com capacidade (auto) crítica. Precisamos de espírito filosófico e científico, de abertura dialógica para os conhecimentos produzidos nas diversas áreas de saberes e de capacidade de experimentar ideias na prática.

O IDEAL: Na sua trajetória acadêmica, que, em parte, consiste na investigação da história do movimento espírita brasileiro, você se deparou, ao estudar essa história, com inter-relações entre política e espiritismo? O que você poderia dizer sobre elas? Qual a sua relevância para que o Espiritismo se instituísse e desenvolvesse no Brasil?

SINUÊ: A história do movimento espírita brasileiro está repleta de conexões com a política, sobretudo em sentido lato, como esse campo de concepções acerca da organização da sociedade. Num sentido mais estrito, de relacionamento com o Estado brasileiro, o movimento espírita teve de se defender jurídica e politicamente durante a República Velha diante da possibilidade de criminalização de práticas de cura e, por muito tempo, lutou contra a hegemonia católica que teimou em manter-se privilegiada junto ao Estado, como na “Era Vargas”.

O IDEAL: E que tipo de concepções políticas embasaram o movimento espírita?

SINUÊ: Muitas concepções políticas foram apresentadas no movimento espírita. Embora tenha predominado a alegação de “neutralidade” política, houve manifestações que variam no espectro político da esquerda à direita, sendo mais ou menos toleradas ou reprimidas de acordo com o contexto histórico e a seletividade ideológica do ensinamento dominante no meio espírita, reproduzindo boa parte dos padrões vigentes na sociedade. É interessante notar ainda a existência de uma tradição intelectual espírita de viés socialista, da qual o Movimento Universitário Espírita dos anos 1960-1970 é uma de suas mais vivas expressões. Embora minoritária e de pouca visibilidade, essa rica tradição manteve-se ao longo de toda a história do movimento espírita até os dias de hoje.

O IDEAL: O que pensar da aparente cisão que hoje divide a sociedade brasileira, de posicionamentos ideológicos mais conservadores, não raro afeitos ao fanatismo, diante de posições mais progressistas, e,entretanto, não necessariamente mais aberta ao diálogo? A Doutrina Espírita pode contribuir nesse debate, a partir de seus temas?

SINUÊ: O movimento espírita reproduz muito do que se passa na sociedade mais ampla, inclusive e infelizmente suas manifestações mais retrógradas. Penso que, para realmente contribuirmos positivamente com o debate político instalado no país, nós espíritas precisamos superar os “atavismos dogmáticos” e nos movermos coerentemente pela intensa e sincera busca da aplicação do amor universal na nossa vida em coletividade. Nos termos aristotélicos, a política é a arte de governar visando ao bem comum. Parece-me um bom ponto de partida para fazermos a ponte com princípios éticos encontrados no Espiritismo. Daí, podem florescer vias de entendimento para que nossa ética não se perca em elucubrações demasiado abstratas e, assim, encontremos a sua devida aderência aos urgentes problemas do mundo, que clamam pela nossa disposição em enfrentá-los.

O IDEAL: Na página “Espiritismo e direitos humanos”, do Facebook, frequentemente  são tratadas temáticas muito sensíveis aos espíritas mais conservadores, que  apresentam verdadeiros tabus dentro de um centro espírita, cujos participantes, em parte considerável, ainda se situam mais à direita do espectro ideológico, como, aliás, também os profitentes de outras religiões cristãs. Você avalia oportuno o tratamento de tais temas, ainda que delicados, no âmbito de um centro espírita? Se sim, como que tais temas podem sair do círculo dos intelectuais espíritas e atingir o frequentador da casa, de modo a arejar a prática espírita com a leveza e o caráter progressista que, entretanto, tanto caracterizou essa doutrina em seus primórdios?

SINUÊ: A meu ver é urgente a reflexão e a ação dos espíritas em prol da pauta dos direitos humanos. É totalmente coerente com o princípio de amor universal defendido pelo Espiritismo. Trata-se de uma atualização das implicações desse princípio, com vistas à sensibilidade e ao entendimento contemporâneo do pensamento mais progressista. Nessa perspectiva, o ser humano deve ser respeitado e protegido na sua dignidade intrínseca, em toda a sua rica diversidade. Toda a forma de opressão, de exploração e de dominação deve ser enfrentada radicalmente e assim superada. Devemos aprender a nos amarmos, cada vez em níveis mais amplos e profundos, buscando soluções efetivas e duradouras para os problemas sociais contemporâneos. Parece-me que além da reflexão intelectual acerca da política, das questões sociais e da ética espírita, é preciso que a experiência prática e sensível orientada por ideais progressistas encontre espaço na casa espírita.