Série Tríplice Aspecto do Espiritismo – Ciência


alexander

[Publicada originalmente no jornal O IDEAL, edições 228 e 229, de julho e agosto de 2015].

Na obra O Consolador, de Emmanuel/Chico Xavier, publicada em 1940, o benfeitor espiritual esclarece que “a ciência do mundo, se não deseja continuar no papel de comparsa da tirania e da destruição, tem absoluta necessidade do Espiritismo, cuja finalidade divina é a iluminação dos sentimentos”. A frase de Emmanuel mostra que a ciência não é revestida do valor de infalibilidade moral que lhe é costumeiramente atribuído pelo senso comum, necessitando, aliás, ser iluminada pelos princípios transcendentais do espiritualismo. Por outro lado, reafirma o princípio doutrinário de que não existe uma oposição entre Ciência e Religião, ou entre Ciência e Espiritismo, reforçando, portanto, o espírito com o qual a Doutrina dos Espíritos se organizou desde o século XIX: o de ser uma reflexão não dogmática, investigativa, iluminadora da verdade para o conhecimento do mundo através da descoberta do Espírito.
Para conversar sobre as relações entre Ciência e Espiritismo, convidamos o Prof. Dr. Alexander Moreira-Almeida. Alexander é médico psiquiatra, doutor em psiquiatria pela USP e pós-doutor pela Duke University. Atua na UFJF, onde desenvolve pesquisas sobre Espiritualidade e Saúde, relação mente e cérebro, filosofia e história da ciência, tendo publicado dezenas de artigos em periódicos científicos de várias partes do mundo.

O IDEAL: Em que aspectos podemos compreender o Espiritismo enquanto ciência?
Alexander: Vou procurar responder esta entrevista de acordo com o ponto de vista de Allan Kardec, conforme expresso ao longo de seus livros e da “Revista Espírita”. Kardec entendia o Espiritismo como uma filosofia espiritualista que derivou da investigação científica de experiências espirituais, notadamente, das experiências mediúnicas. Uma das definições que Kardec deu de Espiritismo está na introdução do livro “O que é o Espiritismo?”: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”.

O IDEAL: Qual o lugar da ciência diante do “tríplice aspecto” do Espiritismo (diante da “filosofia” e da “religião”)?
Alexander: Kardec defendia que a ciência seria a base, a origem dos princípios espíritas, que surgiram a partir da investigação das comunicações mediúnicas. Com base nestas investigações, formou um corpo teórico, que ele chamou de “filosofia espírita” ou “doutrina espírita” que tem marcantes implicações ligadas à ética e à espiritualidade (em um sentido ampliado de religião). Sobre este tema, vale muito ler o artigo: O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso, disponível em www.espirito.org.br/portal/artigos/geeu/triplice-aspecto.html

O IDEAL: É mais correto dizer que o Espiritismo é uma ciência ou que a ciência passará a incluir princípios espíritas, à medida que avança?
Alexander: Kardec entendia que os fenômenos espíritas (mediunidade, reencarnação, espíritos/mente desencarnadas) fazem parte da natureza, assim como os micróbios e as estrelas. Assim, seriam passíveis de investigação científica (racional e baseada na observação de fatos), que foi o que buscou fazer com o Espiritismo.

O IDEAL: Nesse sentido, podemos dizer que as “descobertas do Espírito” farão um dia parte do conhecimento geral aceito por toda a humanidade, do mesmo modo, por exemplo, que não se contesta mais o fato de que a Terra é esférica e não plana?
Alexander: Sim! Por serem fatos da natureza, estes princípios espíritas seriam com o tempo aceitos por toda a humanidade, pois as evidências das pesquisas a isso levariam. Do mesmo modo que a crença de que a Terra gira em torno do Sol se generalizou, apesar de muitas resistências iniciais. Por isso, Kardec não via o Espiritismo como uma nova seita disputando espaço com as já existentes. Ele entendia o espiritismo como uma investigação da dimensão espiritual do universo, que poderia ser aceita por pessoas de qualquer religião.

O IDEAL: É necessária uma “ciência espírita”? Por quê?
Alexander: A ciência espírita seria o próprio espiritismo, não seria possível um espiritismo sem ciência espírita, pois este seria o modo de lida com as experiências mediúnicas e com as informações por elas obtidas.

O IDEAL: Que desafios poderíamos pensar que o espírita de hoje tem para a compreensão do Espiritismo enquanto uma ciência? Você acha que a vertente religiosa não tem tornado os espíritas de hoje mais dogmáticos e menos abertos à investigação (diferente da época de Kardec)?
Alexander: Acho essencial que se conheça melhor o trabalho de Kardec, seu modo de pensar, de lidar com os desafios e de investigar a mediunidade. Ele tinha uma postura não dogmática, muito aberta à crítica embasada, e, ao mesmo tempo, de tolerância com pessoas que discordassem de suas posturas. Para este conhecimento [científico], penso ser essencial se conhecer melhor, estudar a fundo a “Revista Espírita”, que é onde podemos ver Kardec atuando, investigando, elaborando e testando teorias etc.

O IDEAL: Como conciliar o aspecto investigativo da ciência com a noção de “revelação divina”, tal como é pensado, em certa medida, a Doutrina Espírita? Estamos diante de um novo paradigma?
Alexander: Este é um tema que gera muita confusão. Justamente devido ao risco de confusões místicas, Kardec dedicou o primeiro (e longo) capítulo de seu último livro (“A Gênese”) ao tema. Chama-se “Caráter da Revelação Espírita”, um capítulo que deveria ser lido e debatido com vagar pelos Espíritas. Ele achou tão importante este capítulo, que escreveu o seguinte na Introdução do livro: “pareceu-nos necessário definir claramente os papéis respectivos dos Espíritos e dos homens na elaboração da nova doutrina. Essas considerações preliminares, que a escoimam de toda ideia de misticismo, fazem objeto do primeiro capítulo, intitulado: Caracteres da revelação espírita. Pedimos séria atenção para esse ponto, porque, de certo modo, está aí o nó da questão.”. No entanto, infelizmente, este capítulo é um desconhecido para a grande maioria dos espíritas, mesmo pelos que assumem atividades de direção e divulgação.

O IDEAL: Que agenda definiria hoje, a seu ver, as pesquisas no campo da espiritualidade dentro e fora da Doutrina Espírita?
Alexander: A espiritualidade, bem como as experiências espirituais, sempre esteve presente na história da humanidade e tem presença marcante em todas as tradições religiosas e espirituais. Tem havido um crescente interesse do meio acadêmico na investigação rigorosa e não dogmática da espiritualidade. Uma das áreas que mais tem crescido é a da investigação das relações entre espiritualidade e saúde. Tem havido também estudos históricos que investigam e têm questionado o mito de que sempre houve uma oposição entre ciência/racionalidade e religião. Com o intuito de divulgar muito das pesquisas recentes em ciência e espiritualidade, nosso grupo de pesquisas criou uma TV no YouTube, a TV NUPES, que coloca toda semana um vídeo novo e curto (três a cinco minutos) sobre o tema, e pode ser visualizado no site: www.youtube.com/nupesufjf

O IDEAL: Que caminhos você recomenda para o espírita que quer se aprofundar no âmbito científico da Doutrina?
Alexander: Penso que seria muito importante estudar o que Kardec escreveu sobre o tema, notadamente na Introdução de “O Livro dos Espíritos”, cap. 1 de “A Gênese” e ao longo do livro “O que é o Espiritismo”. Recomendo também os artigos do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp, coordenado pelo Prof. Sílvio Chibeni: www.espirito.org.br/portal/artigos/geeu/