Série Tríplice Aspecto do Espiritismo – Filosofia


humberto

[Publicada originalmente no jornal O IDEAL, edições 226 e 227, de maio e junho de 2015].

Em O que é o Espiritismo?, Kardec afirma que a Doutrina Espírita pode ser definida de forma dupla: uma “ciência de observação” e uma “doutrina filosófica”. Para o Codificador, o Espiritismo, “como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem de tais relações”. Segundo essa orientação, caberia a Emmanuel, no Consolador, acrescentar, ainda, a terceira dimensão da revelação espírita: a dimensão religiosa. Para ele, o Espiritismo pode ser simbolizado como um triângulo de forças espirituais: “a Ciência e a Filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a Religião é o ângulo divino que liga a Terra ao Céu”.
Para abordar, portanto, o aspecto filosófico, convidamos o Prof. Humberto Schubert Coelho. Doutor em Ciência da Religião e pesquisador das áreas de Filosofia, Metafísica, Ética e Filosofia da Religião, Humberto é atualmente professor adjunto no curso de Filosofia da UFJF. É autor, entre diversos artigos sobre filosofia e religião, dos seguintes livros: A genealogia do Espírito (FEB, 2009) e A filosofia perene (Didier, 2014).

O IDEAL: Em que aspectos podemos compreender a dimensão filosófica do Espiritismo?
Humberto: A filosofia é a disciplina que orienta a busca de sentido para a vida, precisando considerar no bojo todas as demais disciplinas e atividades humanas, sem as quais sua tarefa estaria sempre incompleta e enviesada. Podemos identificar a dimensão filosófica do Espiritismo quando constatamos que ele é inteiramente orientado para esta busca legitimamente filosófica do sentido da vida, levantando considerações sérias sobre as origens da realidade, nosso contato com ela, a constituição moral humana e o destino dos seres.

O IDEAL: Qual o lugar da filosofia diante do “tríplice aspecto” do Espiritismo (diante da “ciência” e da “religião”)?
Humberto: Penso que o lugar da filosofia é sempre nas bases, não no topo. Não lhe cabe coroar a meditação humana, mas buscar seus princípios e fundamentos, justificando as atividades outras. O seu papel junto à ciência e à religião é o de crítica e orientação, para que estas atividades não recaiam nos riscos do dogmatismo, cessando de dialogar entre si.

O IDEAL: Por que isso ocorreu, ao longo da história? Isto é: a ciência e a religião terem caído no dogmatismo?
Humberto: O fato de isso ocorrer tão frequentemente ao longo da história humana denota a falência da filosofia em cumprir o seu papel; muito frequentemente porque ela é ignorada ou afastada das considerações científicas ou religiosas.

O IDEAL: É necessária uma “filosofia espírita” ou “Espiritismo filosófico”? Por quê?
Humberto: Lembrando que poucas pessoas podem se dedicar exclusivamente à filosofia, assim como ocorre com a ciência e a religião em seus variados aspectos, a atividade filosófica especializada não é ou poderia ser uma necessidade absoluta para cumprimento dos propósitos basilares do Espiritismo, a saber, a reforma íntima. Ela é, contudo, um poderoso contribuinte, tal qual a piedade religiosa e o rigor científico o são, devendo ser estimulada em proveito do corpo doutrinário e do movimento espírita.

O IDEAL: Em que medida podemos dizer que o Espiritismo é filosófico?
Humberto: O Espiritismo é, por natureza, acentuadamente filosófico, ensejando meditações e reflexões profundas em todos os que lhe dedicam tempo e esforço. Ser-lhe-ia proveitoso recuperar a gravidade com que era exercido em seu nascedouro, quando contava com a atenção de cientistas e filósofos, além das almas de boa vontade. Entretanto, o período de transferência do Espiritismo para o Brasil fez-nos compreender que ele pode, inclusive, sobreviver e preservar-se satisfatoriamente na ausência da colaboração dos sábios e eruditos.

O IDEAL: Qual a relação entre uma “filosofia espírita” com outras perspectivas do espiritualismo?
Humberto: A filosofia espiritualista é a mãe do Espiritismo e de sua filosofia específica, devendo ser estudada com cuidado e dedicação, desde suas origens tribais, passando pelas grandes revelações intelectuais e morais da Grécia Clássica e da Judéia até o presente. A filosofia espírita, contudo, se diferencia pela estreita união com a ciência e a religião, que tipificam o tríplice aspecto da doutrina, e foi uma das maiores realizações de Kardec, sob orientação zelosa da espiritualidade. Ela oferece, assim, uma fácil e inusitada transição dos fenômenos naturais aos morais, ambos mediados pela meditação abstrata.

O IDEAL: Poderia nos dar um exemplo do tipo de contribuição que a dimensão filosófica do Espiritismo oferece à Humanidade?
Humberto: Desvelando desassombradamente a comunicabilidade com os espíritos, por exemplo, ela permite estágios bastante ampliados de intuição e considerações que começam a despontar em nossa literatura ao longo destes curtos 160 anos. Os relatos de além-túmulo da literatura mediúnica têm servido a profundos esclarecimentos sobre as consequências biopsicomorais da ação humana.

O IDEAL: Como conciliar o aspecto investigativo da filosofia com a ideia de “revelação divina” contida na Doutrina Espírita?
Humberto: Essa conciliação é possível através da naturalização das noções teológicas, o que constitui, não por acaso, uma das maiores realizações do Espiritismo. A não contradição entre os fenômenos ‘milagrosos’ e ‘sobrenaturais’ e a ciência só nos é compreensível quando abdicamos da noção de divisão brusca entre os mundos material e espiritual.

O IDEAL: Sendo assim, podemos concluir que o aspecto filosófico da Doutrina colabora para o desaparecimento da noção de sobrenaturalidade?
Humberto: Sim, afastando as ideias de ‘sobre’naturalidade, resta ao espiritismo abordar os muitos fenômenos místicos, religiosos e paranormais sob o aspecto da naturalidade. Daí ser possível o contato entre pessoas, energias e substâncias entre o “mundo material” e o “mundo espiritual”, evidenciando que de fato só há um mundo, uma realidade, e a complexidade de suas leis permite a sua divisão dimensional sem perda de interligação entre as várias esferas possíveis. A revelação, teologicamente considerada evento sobrenatural e misterioso, começa a ser compreendida como mais um entre incontáveis fenômenos de inspiração em favor do progresso humano.

O IDEAL: Como a “filosofia espírita” mantém diálogo com a filosofia não espírita? Quais correntes filosóficas melhor concordam com o Espiritismo?
Humberto: Esse diálogo é dificultado pelos preconceitos de que o Espiritismo em geral é vítima, não raro por culpa de seus praticantes. Como ocorre com qualquer corrente filosófica, ele também é bem visto em seu próprio nicho, o qual ocorre de ser muito específico. Dentro desse nicho há, porém, companhias das mais respeitáveis, como os variados tipos de platonismo que ao longo de milênios ressurgem para infundir na cultura a mesma mensagem.

O IDEAL: Por que Kardec, na introdução de O Livro dos Espíritos, destaca Sócrates e Platão como precursores do Espiritismo? Por que não Buda e Confúcio, ou mesmo Moisés?
Humberto: Penso particularmente que as grandes personagens religiosas se prestariam muito bem a essa exemplificação, mas a escolha de Kardec teve motivação estratégica. Queria ele, com isso, associar o Espiritismo às formas mais críticas de espiritualismo, demonstrando não apenas a importância de seu aspecto religioso, como igualmente a imprescindibilidade de seus aspectos científico e filosófico. Associá-lo ao nascimento da consciência ocidental em seus caracteres mais nobres permitiu-lhe, entre outras coisas, tecer logicamente o tríplice aspecto da doutrina.

O IDEAL: Em seu último livro, A filosofia perene (Didier, 2014), você relaciona a Doutrina Espírita ao conceito de “filosofia perene”. Poderia explicar para nossos leitores o que significa esse termo e porque é possível pensar a Doutrina Espírita assim?
Humberto: A filosofia perene não é uma corrente filosófica, mas a expressão da crença de alguns filósofos de que um grande plano orienta as inúmeras correntes individuais e personalistas de uma forma natural e/ou providencial. Se cada filosofia é um barco que tenta navegar ao seu gosto, a filosofia perene é a imagem do rio que serenamente arrasta em sua corrente todos os barcos para o mesmo fim. Como dito acima, vejo o Espiritismo como filho e amigo do espiritualismo. É certamente uma evolução, pois deixa para trás as superstições e preconceitos de seus predecessores, mas também é certo que não será a última palavra do espiritualismo, como nos afiança o próprio Codificador. É, portanto, um elo da corrente interminável de amadurecimento do homem em direção a Deus, pelo que é justo afirmar que pertence ao grande corpo da filosofia perene.