Série Tríplice Aspecto do Espiritismo – Religião


nara

[Publicada originalmente no jornal O IDEAL, edições 230 e 231, de setembro e outubro de 2015].
Obra de 1940, O Consolador, de autoria espiritual de Emmanuel e psicografia de Francisco Cândido Xavier, responde a mais de 300 perguntas sobre aspectos da Doutrina Espírita. Mais de 70 anos depois, as perguntas e respostas dessa obra permanecem atuais e servem como uma importante referência para todos os estudiosos da Doutrina Espírita. Naquela ocasião, Emmanuel organizou a matéria tratando de relações que dizem respeito a Espiritismo e Ciência, Espiritismo e Filosofia, e Espiritismo e Religião.
As perguntas sobre Espiritismo e Religião não casualmente foram na última parte da obra. Embora não subsista fé raciocinada sem as contribuições da ciência e sem as especulações da filosofia, é no âmbito religioso que a Revelação do Espírito encontra o seu corolário: como afirma Emmanuel, a “Religião é o sentimento divino, cujas exteriorizações são sempre o Amor, nas expressões mais sublimes”. Enquanto a Ciência e a Filosofia edificam as bases sobre as quais se sustenta o Espírito a caminho da luz, a Religião é a abóbada dessa construção, que re-liga o ser humano a Deus.
Temos a alegria de entrevistar Nara Salomão de Campos Coelho. Expositora espírita e autora de livros e artigos sobre o Espiritismo, Nara é uma referência no movimento espírita de Juiz de Fora. Articulista em várias revistas e jornais espíritas, autora dos livros Enquanto há luz, Regininha e a páscoa e Regininha e o Natal, nesta edição Nara nos esclarece, com a atenção e a gentileza que lhe são características, sobre o que pensar do Espiritismo como Religião.
Nara, seja bem-vinda!

O IDEAL: Para começar, poderia nos dizer em que aspectos o Espiritismo pode ser visto como uma religião?
Nara: É interessante como existe muita dificuldade em se reconhecer o Espiritismo como religião… Isto porque, homens velhos que somos, vimos ao longo dos milênios nos submetendo à(s) divindade(s) com oferendas, dogmas de fé, rituais e liturgias, que nos encantam, até hoje, materializando o que é espiritual. A nossa condição de precisar de algo concreto para representar o objeto de nossa fé, vem nos prendendo ao estereótipo de religião criada pelos homens. Se procurarmos este tipo de religião no Espiritismo, não a encontraremos. O espiritismo vem trazer de volta os ensinos puros de Jesus, que conclamou “dia virá em que Deus será adorado em Espírito e Verdade!” O Espiritismo é religião espiritual. Mas é uma religião, especialmente pelo fato de estabelecer Jesus como nosso Mestre e modelo a ser seguido, e Deus como “inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas!”

O IDEAL: Se o Espiritismo não é uma religião no sentido tradicional do termo, o que significa “religião” para o Espiritismo?
Nara: Para o Espiritismo, religião é a que nos vê como Espíritos, religando-nos a Deus. É moral, no dizer de Kardec, que classificou o Espiritismo com Ciência, Filosofia e Moral, para não cair no resvaladouro caminho das religiões puramente humanas. Assim, como dissemos antes, se procurarmos no Espiritismo as características materiais das religiões tradicionais, não encontraremos. Por isto é religião mais difícil de ser adotada pelas multidões, pois exige amadurecimento espiritual, esforço para o aperfeiçoamento indispensável.

O IDEAL: O Espiritismo seria, então, uma religião que exigiria mais de seus seguidores?
Nara: Exatamente. Kardec nos diz, que “conhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral, pelo grande esforço que faz para combater suas más tendências”. Daí, entendermos porque tantos espíritas tentam trazer pensamentos igrejeiros para o Espiritismo, querendo materializar o que é espiritual. Por exemplo, não entendem porque não temos batismo, nem casamento religioso e outros rituais. “O que tem de mais?!” Perguntam impressionados e, na maioria das vezes, se não conseguem se casar no centro espírita, por encontrarem espíritas seguros na direção, correm para realizar estes sacramentos em outras religiões.

O IDEAL: À época de Kardec, você acredita que era necessária uma “religião” espírita? E em nossos dias?
Nara: Sim, sem dúvida. A religião, à época de Kardec, foi indispensável em virtude da deturpação sofrida pelo Cristianismo. Eis que o Espiritismo trouxe de volta os ensinos de Jesus em sua pureza primitiva, já que na ocasião citada seu conteúdo divino era desconhecido dos ditos cristãos, porque a mensagem de Jesus foi, ao longo dos séculos, recebendo influência dos interesses materiais das religiões encarregadas de divulgá-lo, dos princípios destas mesmas religiões, transformando-se em um sincretismo religioso, a tal ponto que Jesus é mais conhecido pela maldade feita a ele, do que pelas maravilhas do seu Evangelho. Sem o Espiritismo, dificilmente teríamos Jesus de volta, fato previsto no Evangelho. Enquanto isto, as religiões continuam esperando por este acontecimento mas este já se deu pelo advento do Espiritismo.

O IDEAL: Na sua opinião, qual o lugar do aspecto religioso, diante do científico e do filosófico na Doutrina Espírita? Pode existir algum conflito entre eles?
Nara: O Espiritismo é classificado em seu tríplice aspecto: Ciência, Filosofia e Moral (Religião). Os três aspectos têm o mesmo valor. Se tirarmos um deles deturparemos o caráter do Espiritismo, pois seria como se tirássemos um dos pés de uma mesa tripé. Lembra-nos Herculano Pires, que Kardec seria um filósofo dos mais respeitados nas academias do Mundo, se tivesse tirado Deus e Jesus dos princípios básicos do Espiritismo. Mas ele preferiu não entrar pela porta da frente do meio acadêmico, para deixar-nos a religiosidade espiritual que emana do Espiritismo. Entender Deus e sua Justiça e ter Jesus como modelo é um grande diferencial. O conflito que existe é movido pelo orgulho de quem ainda não entendeu o Espiritismo.

O IDEAL: Como é que o Espiritismo, visto como uma “religião” lida com a ausência de sinais litúrgicos, como um “livro sagrado”, “dogmas”, “símbolos” etc.? Ou você acha que o próprio Espiritismo constrói a sua liturgia religiosa?
Nara: Liturgia, dogmas de fé, rituais, são exigências de religiões materiais. O homem primitivo adorava o fogo, a lua, o sol, as estrelas… Fazia oferendas aos deuses, de jovens virgens, mais tarde evoluindo, ofertavam animais e assim por diante. À medida que o homem se espiritualiza, vai conseguindo abster-se do concreto para entender Deus e a vida espiritual. Por exemplo, quando o Evangelho diz que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, as religiões inverteram este conceito, entendendo Deus como uma figura antropomórfica: um velho sentado num trono…

O IDEAL: Poderíamos pensar em alguma comparação para entender isso?
Nara: Se pensarmos numa comparação, podemos citar a criança no Jardim da Infância. Tudo para ela é baseado no concreto, para entender as lições. Recortar, pintar, colar, etc., fazem parte da didática utilizada para elas. Professor nenhum irá oferecer a estas crianças um livro de filosofia ou matemática superior. Assim também somos nós com o entendimento dos princípios espíritas. Os procedimentos materiais não fazem falta ao espírita. Com todo respeito, já passamos desta fase. Somos espíritos velhos.

O IDEAL: Vivemos em um momento de profunda crise das religiões cristãs. Além da intolerância e do abuso apregoados em nome do Cristo, vemos também como, em muitos casos, seus líderes são aqueles que justamente dão os piores exemplos à sociedade. Na sua opinião, como o Espiritismo, enquanto religião cristã, se relaciona com outras formas de crenças cristãs em nosso país? Em outras palavras, de que maneira o “Cristianismo espírita” é diferente do “evangélico” e do “católico”?
Nara: Relacionamento de respeito e fraternidade. Cada religião oferece o que o adepto procura e precisa. Kardec nos diz que o Espiritismo não veio tirar ninguém da sua religião. Ele veio para os que estão precisando de respostas que essa Doutrina oferece. Entretanto, o Espiritismo é diferente das religiões citadas, pois traz de volta as leis da reencarnação, de causa e efeito, entre outras que Jesus ensinou e que por elas foram abolidas. O Espiritismo nos fala à razão e ao sentimento, eliminando os aspectos materiais, dando ênfase às ações no bem, enquadradas na lei do Amor. Dentro desses valores, o Espiritismo precisa se diferenciar das práticas condenáveis presentes em muitos movimentos religiosos.
O IDEAL: Poderia nos dar um exemplo de como o Espiritismo, visto no quadro das religiões brasileiras, pode dar sua contribuição para o avanço do tema do papel das religiões na sociedade?
Nara: Sem medo de errar, posso dizer que o Espiritismo pode transformar o mundo, porque transforma o homem! E com Kardec aprendemos que o caráter de um povo se faz pela soma dos caracteres de seus cidadãos. Ao mostrar-nos que somos artífices do nosso futuro, responsáveis pelos próprios atos, que irão edificar a felicidade ou a infelicidade própria; que não existe milagre, mas a evolução que nos propicia méritos; que reencarnaremos tantas vezes quanto as necessárias ao nosso aperfeiçoamento; ou seja, quando entendemos a nossa finalidade na Terra, tudo se ajusta. Temos vontade de nos melhorar porque sabemos que as consequências serão boas. Assim, a melhora do mundo parte da melhora do mundo interior de cada um de nós. A tarefa é gigantesca, mas é possível.

O IDEAL: É verdade, porém os adeptos ainda encontram muita dificuldade na transposição da “teoria” para a “prática”. Que desafios o espírita tem para a compreensão do Espiritismo como um discurso verdadeiramente religioso e uma proposta para vida?
Nara: Eis a nossa maior dificuldade. Nestes 158 anos de Espiritismo, tudo poderia estar melhor. Mas, como disse anteriormente, preferimos nos colocar entre os que acham que o Espiritismo precisa de rituais que nos agradem a visão física. Há pouco tempo, alguém reclamou, dizendo ser muito difícil ser espírita, com esta necessidade de progredir. É mais fácil esperar pelo milagre… Realmente. Mesmo entre alguns espíritas trabalhadores, encontramos quem não entendeu a religião espírita: eis que tratam os médiuns, os expositores etc. tal qual “santos”, que têm que resolver os problemas dos consulentes, milagrosamente…

O IDEAL: E ainda há aqueles que acabam desistindo, abandonando, talvez sem coragem de empreender a mudança que a Doutrina nos propõe, não é verdade?
Nara: Para uma espírita antiga como sou, é triste ver quantos trabalhadores promissores se perderam pelo caminho, vitimados pelo orgulho, pela vaidade. Acredito que o desafio maior é o estudo. Mas nele também está embutido o perigo da vaidade, por essa razão precisamos estudar e agir para nos educar. É comum ver os trabalhadores usando o Espiritismo para “o próximo” sem, no entanto, usá-lo para si, para se aperfeiçoar, lembrando-nos mais uma vez de Kardec, quando nos disse: “Conhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral, pelo grande esforço que faz em combater suas más tendências.” Precisamos nos libertar do fantasma das religiões dogmáticas, que nos viciaram a inteligência, impedindo-nos de ser livres, para, ao contrário, nos tornarmos responsáveis por nossos atos.

O IDEAL: Sobre a importância do estudo. Como o espírita pode avançar seu estudo sobre as relações entre religião e espiritismo? Pode nos indicar um caminho?
Nara: Não sei se tenho autoridade para isso, mas vou dizer o que fiz e que me alimenta o Espírito. Estudar a Codificação é fundamental. Estudar, e não apenas ler. Estudar as obras psicografadas por Chico Xavier. Fonte Viva, por exemplo, faço dele leitura diária: cada página é uma enxurrada de ensinamentos práticos e profundamente transformadores. É preocupante perceber que alguns espíritas têm procurado livros mais fáceis, de origem até duvidosa, falseando os fundamentos da Doutrina e, assim, enfraquecendo-lhe o conteúdo. Outra coisa: ação transformadora. Entender e agir. No bem. Procurar participar do mundo, lendo bons livros, para ver como anda o pensamento da humanidade, jornais que nos coloquem em dia com os acontecimentos, para não ficarmos alienados e ter opinião segura a respeito dos fatos, para viver no mundo, sem ser do mundo, como nos conclamou Jesus. Luto todos os dias para ter uma consciência segura e harmonizada com as leis divinas, que o Espiritismo nos aclara, defendendo-nos contra o beatismo. Não ter medo de assumir que queremos seguir Jesus, pois ele veio para ser seguido, é nosso Mestre e modelo. Levar isso para a prática, honrando-lhe os ensinos com nossos entes queridos, dentro da nossa casa, principalmente. Aos poucos, vamos conseguindo agir aqui e ali… Apesar de nossa pequenez…

O IDEAL: Nara, agradecemos imensamente pela entrevista, pelas belas respostas!
Nara: Quero agradecer o carinho de O IDEAL, dando-me a oportunidade de falar por meio dele, de minha convicção espírita. E finalizar dizendo: sei que o Espiritismo é a chave para o nosso entendimento das leis da vida e do mundo, percebendo que o amor doado se multiplica e nos ajuda a ser feliz, onde estivermos.
Abraço amigo a todos!